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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis
ago   201428

Do Liso amor que enrugou

Postado em Artigos

Quando sinto que uma fatalidade me cai na cabeça como uma bigorna da ACME, eu sempre me lembro da compreensão solitária de Heráclito no mundo grego: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Essa me parece, até agora, uma das poucas visões de mundo que permite a possibilidade de se reaver com o mundo e o sofrimento nele contido nos períodos em que caem bigornas em nossas cabeças: Um amor tão Liso que, por ser assim, enrugou.

Um amor que, de início, era pura curiosidade e admiração, como se é ao ouvir pela primeira vez uma banda experimental e quando se tem o espírito musical aventureiro: busca-se tudo de coração, olhos e ouvidos atentos aos timbres mais delicados desse amor.

Depois, esse amor passou a ser um amor “fon fon fon” com a alegria e satisfação daqueles que estão enamorados em frente ao rio Tejo vendo a banda passar. Aqui, conforme diz a música, não há espaço para o “romantismo” uma vez que, muitas vezes, ao “invés de beijar ele sopra” de tão acostumado com a tuba e sua música.

Do “fon fon fon”, esse amor encontrou momentos de “beijos doces” maravilhosos como “Biju” ou de uma frescura da noite como em “Mãos dadas”. Por alguns momentos o intitularíamos como passagens de um álbum “Triste e cru” para poder omitir pelo título, a beleza esplendorosa nele contida.

Após e permanentemente, os violinos e as canções de um “Horse Featers” preenchiam esse amor sob os lençóis e na penumbra: timbres de um erotismo “country” de reencontro com a terra e com a vida.

Nesse meio tempo, alguma coisa da trilha sonora desse amor saiu da frequência e produziu chiados imperceptíveis que saturaram os ouvidos mais argutos: uma porcelana delicada cheia de microfissuras a ponto de trincar.

Depois de toda uma trajetória de deleite e alegria de canções e melodias que irrigavam esse amor que era Liso, restou apenas um silêncio ensurdecedor que cala. Mas, não o silencio de “Cala” e sim um silêncio desconcertante entre as faixas de um disco. Um silencio de fim de show no peito e exaustão. Um silêncio de refeições solitárias. Um silêncio... Se como diz o filósofo “a vida sem música seria um erro”, então, chego a pensar que nesse silêncio do enrugamento de um amor tão Liso, a vida é mais “erro” do que propriamente qualquer outra coisa. Não há maior bigorna do que um silêncio assim: que após tantas melodias bonitas se transforma em vazio e ruga.

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