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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis

Quando ouvi falar pela primeira vez desse tal de “do it yourself” nem imaginava a capacidade que ele teria de servir de “auto-formação” de uma subjetividade. Sério! Essa ideia gerada pelo movimento punk, que pode ser bem traduzida pelo termo da moda “faça-você-mesmo”, afetou nossas cabeças de tal modo que todo nosso corpo se embalou nessa promessa de autonomia, amadurecimento e liberdade.

Seja nesse início que o acesso ao rock era uma exclusividade de um “teto Francisco” que possuía um aparelho toca-fitas-cd, seja agora, quando a internet pulula produções mais do que acessíveis a todos, sempre há de existir os nossos “antípodas”: Seres de almas puras que só ouvem toques de arpas celestiais em que o espírito e o corpo REPOUSAM. Entre esses nossos antípodas, há sempre os que dizem “ah, isso é coisa de adolescente, já passa”. Há ainda sempre os que apelidam: “bando de rockero drogado”. Há também sempre os que criminalizam: “olha lá os vagabundos”. Há sempre aqueles que desprezam a diferença: “oh gentinha feia!” praguejam. Há ainda os que não compreendem e fazem a sua condenação com a expressão de desdém do rosto.

A todo esse tipo de condenação passaram aqueles que meteram essa ideia na cabeça n'algum momento, decidindo-se por, de algum modo, se “auto-fazer” por meio do “do it yourself”. Um destes, que de forma desexemplar pôs isso em prática, foi meu amigo de infância que tem o nome do antigo calendário do Ocidente: “o que parece jovial”, como Júlio.

Com essa ideia na cabeça, que ele persegue mais do que riqueza, amantes ou felicidade, foi-se onde nenhuma de nós até agora havia chegado: vislumbrou o velho continente de sua própria alma lá na zoropa.

O mais legal de tudo é que, esse meu amigo “que parecerá sempre jovial”, fez tudo isso por meio de uma banda de rock, por meio do punk, por meio do “do it yourself”. Todas as suas convicções, todas as relações que mantém com as pessoas, todas as suas escolhas, dores, sacrifícios e sorrisos, plantaram a possibilidade dessa sua viagem até o centro de sua própria “auto-formação” subjetiva, tal como compreendo aquilo que os homens chamam “vida”.

Isso tudo me imprime um orgulho e um sorriso de tal modo que ao olhar a trajetória desse projeto de faça-você-mesmo – obviamente interminável – , torna-se difícil não lembrar emocionado de nossos rostos ao executarmos a primeira música com nossa primeira banda, por exemplo. Ele, nesse tempo cantava, ou melhor, colocava para fora todos os sonhos e revoltas que tínhamos no peito: eramos filhos de uma crise que iniciava silenciosa o processo de “auto-formação” que, naquele momento, não sabíamos do que se tratava. Hoje, na planície chata da Europa, “sob maus olhares” já se reconhece essa “tarefa”.

Talvez, o braço contundido na turnê seja “a mão do acaso” dizendo a ele para não se esquecer da dor que sempre o acompanhou tão sorrateiramente, quem sabe?! Dor essa que o lançou ao mundo para talvez fazê-lo refletir sobre as possibilidades ainda infinitas de sua própria “auto-formação” inflando em seu peito o desejo inalterado por uma violenta liberdade de espírito. Dor que certamente o deixou imóvel e aos amigos ao seu redor, pelo fatalismo da fratura do braço e da simples possibilidade de não realizar a liberdade de plugar seu contrabaixo.

De uma viagem como essa ao centro de sua própria subjetividade não se pode “retornar” sem lembranças vívidas que pesam mais que ouro ou diamante. Lembranças que, após serem desembarcadas em seus bolsos, serão distribuídas por meio de uma máquina de xerox que, todavia, em preto e branco, nunca se cansará de imprimir as colagens e ideias que o “do it yourself” lhe tenha engendrado na cabeça.

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Conheça a banda Under bad Eyes: https://underbadeyes.bandcamp.com/

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