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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis

Era sempre pego de surpresa quando o telefone tocava e do outro lado estava o seu Tolentino: “As duas horas eu passo te pegar. Vista roupas velhas!” dizia ele. Foi nesse tempo que eu aprendi que a tralha que muitos jogavam fora transformava-se em dinheiro na mão do avô Tolentino. Vários tipos de metais e uma pilha de papelão compunham seu velho ferro-velho. A enorme pilha de papelão, com a qual meus primos, meu irmão e eu gostávamos de deslizar, formava uma espécie de tobogã improvisado. Obviamente, sempre deslizávamos às escondidas e, numa dessas delicias de molecagem, alguns pontos na boca de meu irmão tiveram que ser feitos ao deslizar diretamente na direção na alavanca da enorme prensa de papel: lembranças do imaginário de infância entre risos, choradeira e sangue escorrendo.

No reino dos metais era sempre uma aventura sem igual bisbilhotar os montes de cobre, antimónio e alumínio a procura de uma peça curiosa: a imaginação alçava voo entre torneiras velhas e caninhos de antenas de TV. Era como caminhar por uma natureza após o dedo do homem: metais e semi-metais transformados em utensílios e, agora, jogados ali nas pilhas do depósito do seu Tolentino, valeriam sonhos. Uma Natureza mais bonita e perfeita do que àquela de Rousseau eram aquelas pilhas de metais.

Como todo e bom ferro-velho, o de seu Tolentino era guardado por uma cão danado de bravo que rosnava mesmo ao menor sinal de qualquer carinho: foram muitos que quiçá lembraríamos os nomes, vira-latas, pastores alemães e tantos outros, sempre guardando o ferro-velho como uma espécie de templo.

Nada que não escapasse a desobediência e astúcia de seus netos. Quase no centro do ferro-velho havia uma casinha que era usada como escritório e, ao mesmo tempo, depósito das pilhas de caixas de tubaína e coca-cola. Tudo fechado a sete chaves e guardado pelo cão feroz.

Mas, devido a sua fama de durão e “sovina” com a qual teria fundado aquele mini império do ferro-velho, os danados dos netos, furiosos com alguma pão-durisse do avô durante o almoço, pulavam muro e portão despistando o cão rabugento. Minutos depois da sovinice do almoço, lá estavam eles, furando as tampinhas dos refrigerantes e bebendo feito reis do mini império do ferro-velho do avô. Seu Tolentino talvez tenha tido a desconfiança que ratinhos muito danados teriam bebericado toda sua dispensa de bebidas daquele mês, quem sabe.

Esse é o quadro do imaginário feliz que tenho do ferro-velho de seu Tolentino.

Não me interessa muito o que dizem ou imaginam dele e de como ele lidava com seus negócios. Isso eu deixo para os adultos rancorosos que não sabem se reconciliar com a vida, inclusive àqueles que por uma fatalidade chamamos de “parentes”.

Talvez sua “dureza” tenha sido exatamente sua qualidade mais divertida: nós, os netos que nunca nos tornaremos “adultos” naquele sentido mesquinho, tirávamos de letra, rindo gostosamente de toda sovinice brincalhona que emanava de sua boca, as vezes, ornamentada com um divertido bigode branco. Talvez seja o jeito Tolentino de ser avô, de seu Tolentino, quem sabe.

Hoje, eu já crescido e um pouco distante, vejo-o, no auge de seus oitenta e poucos anos, com um olhar límpido de neto que respeita e admira-o como naqueles dias em que eu entrava em seu ferro-velho como se adentrasse no Olimpo da curiosidade.

Há muita coisa ainda para o Tolentino do mini império do ferro-velho viver. Não consigo sequer imaginá-lo numa cama de janelas fechadas: não é do seu feitio. Ele precisa ser reconhecido como realmente é: o seu Tolentino do mini império do ferro-velho, seja por filhos, netos ou amigos. Isso significa que teremos que rir com todo nosso coração se, por um acaso, ele nos enganar comendo um coco suculento no lugar do inhame desejado e soltar uma frase como àquelas dos almoços de brincalhona sovinice: “mais que delicia esse inhame com gosto de coco maduro”.

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