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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis
abr   201317

Elogio do pastel

Postado em Artigos

Sempre que me sento à frente do balcão sou recebido com um delicioso sorriso e um “Tudo bem?!” cordial que coloca Dona Massako e eu numa relação para além da convencional disposição proprietário-cliente de qualquer estabelecimento. Essa é a deixa pra imaginarmos como as pastelarias do mundo são espaços de “todos” e de “ninguém”. É só observar! Tentar “ver” aquilo que “enxergamos” quando “olhamos” as coisas, como diz Michel Melamed.

Neste caso específico da pastelaria de Dona Massako, o espaço é distribuído de modo a dispor os vícios em seu devido lugar: de um lado o balcão das bebidas comandado pelo marido e companheiro de Massako; d'outro lado, a pequenina Massako, em seu avental azul escuro, comanda o preparo dos pastéis. Há também as canetas penduradas em seu bolso do avental que jamais se cansam. Há ainda seus ajudantes que se destacam por seus apelidos característicos: um “Batoré” caricato, por exemplo. Há também os cochichos das ajudantes relatando algum dilema ou problema. Tudo, no final das contas, é um minucioso empenho à serventia cordial, típica dos estrangeiros que dedicam suas vidas a serviços em terras tupiniquins.

É uma vida inteira ali, atrás do balcão dedicando-se a prestação de serviços a quem quer que seja. As canetas, como disse, jamais descansam. Um pedido anotado, uma conta feita a mão: a disciplina dos orientais. Eu, caro leitor, venero os orientais por isso e por seus silêncios: a tagarelice é a nossa virtude-vício, não a deles.

Deste caso particular que é a pastelaria de Dona Massako, cometo o descuido de identificar características de seu funcionamento para atribuí-las a digamos, várias outras tantas – senão todas – pastelarias possíveis. Uma extinta em Ourinhos, por exemplo: a Pastelaria Ipiranga ou Bar Ipiranga da Rua Duque de Caxias.

Embora a maioria das características não se assemelhe à pastelaria de Dona Massako, há um ponto comum fundamental em ambos os estabelecimentos que favorece minha correlação: a personagem estrangeira, oriental!

Das vezes em que estive no Bar Ipiranga duas coisas ficaram gravadas em minha memória e que aprendi em segredo venerar: o silêncio da “família” trabalhando e os deliciosos pastéis. Demorou certo tempo para que essas coisas fizessem realmente sentido para mim. Talvez o primeiro sorriso de Dona Massako dez anos mais tarde fosse o sinal, talvez! No entanto, não sei identificar o “momento” pelo qual essa veneração passou a ser evidente.

O que importa disso tudo é o fato de que o pastel passou a significar muito mais do que uma simples refeição trivial dos grandes centros urbanos ou das cidades pequenas: meu apreço pelo pastel é, para mim, uma maneira de venerar o que é estrangeiro e todo o mistério e diferença que ele suscita em mim. Introduzido no Brasil pelos imigrantes orientais (chineses), o pastel frito diz muitas coisas a respeito do desafio de respeitar o estrangeiro, o que é estranho, o que vem de fora. E isso me faz lembrar a hospitalidade dos gregos antigos que antes de dar as costas àquele que é estrangeiro, fechar suas portas, diziam o seguinte ao encontrar um pela frente: “Menosprezar não costumo nenhum estrangeiro, ainda mesmo em pior estado que tu...Pouco, realmente, podemos te oferecer, mas de grado o fazemos.”

Estas são as palavras de Eumeu na Odisséia, ao receber Odisseu disfarçado de “mendigo” em Ítaca. Talvez lá, por volta de setecentos anos antes de Cristo, tivessem os gregos algum pastel disfarçado em pão, como os da Dona Massako e do Bar Ipiranga, que representasse tão lindamente a hospitalidade para com os estrangeiros.

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