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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis
abr   201310

Todos somos alérgicos

Postado em Artigos

O último novo grande amigo que adquiri foi o livro “Caminhando” de Henry David Thoureau. Ao sentir a atmosfera das primeiras frases minha memória fez um devaneio um pouco mais ao sul da alma humana: foi inevitável não lembrar-me do autor do Vampiro de Curitiba. Especificamente, ali, ante as primeiras linhas de Thoureau e o ar do século dezenove, veio-me à cabeça a seguinte sentença do velhinho comedor de palavras: “toda infelicidade do homem vem de não saber deixar o carro na garagem”. Imaginei Dalton Trevisan, o velhinho, caminhando nos bosques de Thoureau sem poder comer as palavras excessivas de suas publicações.

Esse devaneio foi interrompido por um grande espirro que retorceu meu corpo. Após uns trinta segundos um novo espirro que, dessa vez, fizera com que todo o céu da boca se repuxasse em enorme coceira aliviada com a língua num prazer secreto. Sim, “Caminhando” era um livro velho, tão velho como o próprio “caminhar” humano. A poeira dos livros velhos me era tão companheira que causava uma pane geral em meu sistema imunológico toda vez que nos encontrávamos: uma batalha úmida e desconcertante. “Caminhando” foi esse meu último vilão a trazer consigo o alérgeno inesperado.

Como existem “métodos” para quase tudo, esse último novo grande amigo me fizera lembrar do método que havia desenvolvido alhures para evitar o alérgeno e que agora estava sendo revisitado com o auxílio do título empoeirado: Caminhando.

É coisa simples e até banal de se dizer: na presença do alérgeno que causa o curto circuito imunológico o que se tem a fazer é afastar-se, neste caso, da poeira literária, que o corpo logo se recompõe. Isto qualquer criança “aprende” por meio do reflexo: uma simples mão no fogo e o braço todo se repuxa. O problema é, antecipará meu leitor: “onde está a poeira?”. Vejam meus caros, tive ainda que lidar com esse inimigo invisível que circulava entre os meus amigos livros mais pomposos. Foi aí que desenvolvi o método – que de novo não tinha nada, a não ser a anedota –, de toda vez que era acometido desse intruso em meu corpo eu simplesmente caminhava.

Caminhava qualquer caminho. Em alguns momentos mais críticos chegava a correr imitando uma personagem de Wong Kar-Wai que corre ao invés de chorar: uma outra forma de derramar líquidos do corpo.

Nesse dia em especial, na ocasião do contato com esse meu último novo grande amigo Thoreau tive que caminhar. Fechei o livro num “clap” típico e meti-o no bolso direito do casaco antes de espirrar. Um espirro. Outro espirro. Aos poucos a coceira no céu da boca ia passando. Quando apontei numa esquina principal pela calçada esbarrei num velhinho de óculos muito simpático. Sua fisionomia me fizera entrefechar os olhos para talvez recuperar o desenho da fisionomia em algum arquivo morto do cérebro... Em vão.

Sim, decisivamente, caminhar era meu método. O método para um alérgico. Mas, já chegando em casa pensei “será que era só o meu método?”. Nesse instante me lembrei da fisionomia do velhinho: era o próprio Trevisan caminhando! Então, sussurrei para mim as seguintes palavras parando um momento de caminhar: “ele também deve ter alergia, anda um bocado pela cidade”.

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