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Rodrigo Satis

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por Rodrigo Satis
mar   201327

O nome das coisas

Postado em Artigos

Poderia contar nos dedos os tipos de relação que as pessoas tem com os nomes: certamente, me faltaria algumas dezenas de mãos. No entanto, há que se começar pelas mãos que se possui. Há aqueles que sequer notam os nomes. Há também outros que só enxergam os nomes por decreto. Há

ainda os que dão as costas para os nomes por vaidade. Há os que vilipendiam os nomes. Há aqueles que só os notam quando ditos em alto-falantes. Há ainda os que se negam a dizer nomes a não ser por meio de gritos. Há aqueles que troçam dos nomes por suas esquisitices. Há quem diga que os

nomes das coisas não importam. Há também nomeadores natos. Há ainda, para terminar pelo mindinho, os que se deliciam com os nomes das coisas.

Quando digo “nome” me refiro ao sentido latino de “palavra ou conjunto de palavras que serve pra designar seres, coisas e ideias”, mas que, aqui, também podem servir como “nome próprio de pessoa”: por exemplo, Rodrigo Satis!

Daqueles tipos de pessoas que cataloguei a partir da contagem de meus dedos, amo, fervorosamente, os últimos, aqueles que se deliciam com os nomes das coisas. Isto se reflete pelo meu modo de avaliar uma cidade. Ou seja, eu avalio um lugar pelos nomes que são conferidos à suas ruas. Se determinadas ruas ganham a nomeação de um literato, logo, a cidade ganha o meu apreço. Ourinhos é um caso a parte.

O leitor então me perguntaria “mas por que um caso a parte?”, isto é simples. Proponho-lhe o seguinte: primeiramente, olhe para sua rua. Observe seu nome. Sílaba por sílaba, testando sua melodia. Veja se se assobia no encontro de suas consoantes. Depois, encare seu significado espelhando-o com o que se vê: um cachorro molenga rolando na carniça, troncos de árvores que são

assentos, o aposentado no portão. Em seguida, contorne a rua em direção às outras que a entrecruzam e repita o processo. Logo perceberá que esta cidade tem apenas um literato como nome de rua: Monteiro Lobato!

Sim, Monteiro Lobato, o autor da “Negrinha” inserido atualmente pelos pedantes na polêmica com o racismo. Trata-se de uma rua pela metade, de apenas cinco quadras. Na esquina com a rua do aviador, ela se transforma em prefeito alguma coisa. Ourinhos é uma exceção no meu apreço pelos nomes e pelas cidades: o valor de suas ruas está nos nomes “comuns” de pessoas que

construíram um espaço singelo no meio do cafezal.

Temos, por exemplo, a rua “José Wilson Minucci” que em seu começo oferece finais de tarde alaranjados. Temos ainda a “Celestino Lopes Bahia” que termina no lar dos meninos deixados de lado. Bem como, temos a rua “Henrique Tocalino” que vislumbra atentamente as velhas locomotivas e seus ruídos maquinais. Outros nomes não tão “comuns” poderiam ser elencados

como, por exemplo, “Gaspar Ricardo”, aquele dirigente da Estrada Sorocabana que se transformou em rua que conduz ao cemitério. Quase sem literatos que nomeiam suas ruas, Ourinhos é para mim uma exceção: suas ruas me deliciam por seus nomes “comuns”! Tudo é no fundo um mapa de sílabas, sons e sentidos.

Nomes são apenas nomes e, é por meio deles, que chamamos a realidade.

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